Categoria
Meus braços parecem ser puxados por uma mola fantástica que não os deixa levantar sob hipótese alguma.
Tento movê-los com força fazendo um esforço semelhante ao puxar para cima (talvez, se pudesse) vários quilos superiores ao meu… e, lentamente, os dois membros sobem como uma imagem de câmera quebrada. O que sou? Estava na cama, dormindo, revirando nas colchas de um fantástico momento de meu subconsciente para com meu subconsciente e chego aqui, trancado, trincado, fechado. Estou debaixo d’água, descrevo. E entretanto, não num sonho… os sonhos são amarelos. Gostaria de abrir meus olhos, talvez uma das poucas coisas que já poderia fazer de boas na vida, mas é impossível. Lacrados como conchas.
Estou enfaixado? Estranho, pois a respiração está normal. Sinto minha boca ressecar, ao mesmo tempo que ouço vozes ao meu redor. Medo domina o corpo inerte, mas sem a menor capacidade, levanto-o com os braços locados para pôr duas pernas - que mais parecem postes de aço - no chão. Caminho com uma dificuldade extrema para o mais longe possível das vozes que soam ameaçadoras, e no entanto, por quê? São apenas vozes normais. Por que tenho medo? Sou como esquizofrênico diagnosticado à medida que mais levo minhas pernas - que parecem chumbo - para longe, longe. Quero correr. Mas o meu corpo me deixa para trás.
A mente já está confusa, tremida, demente. Tenta ficar em si e em todo mundo, fechada e aberta, confiante, e ao mesmo tempo encolhida ao canto… chorando. Os pensamentos voam para direções que convencionalmente não deveriam e que a convivência obriga destino como categorias de um acorde musical. Lutando contra o impulso de correr, levanto meus braços em direção aos olhos fechados.
Logicamente não veria nada, mas a imagem que me aparece ali é clara - quase límpida. Não estão congelados, enfaixados, submersos ou sequer machucados. Em todas sua extensão estão escritas palavras, de cores, tamanhos e fontes diferentes. Meus braços foram feitos de gesso. Olho mais uma vez de relance para as ditas palavras, mas apenas de relance… Porque sua beirante admissão de existência já dói um bocado em meu pequeno coração. Não tento ler os ditos: já foram decorados de forma quase que religiosa.
Mais pessoas chegam para olhar a atração de circo, movendo-se comicamente. Olhos, bocas, risos, pensamentos, categorias. Categorias. Dou graças à Deus pelos meus lábios lacrados quando, quase numa ironia, seu movimento é liberado e digo, errante: “Saiam daqui!”. Todos riem. Continuo andando e balbuciando coisas que não deveria, mas há um momento em que me calo. E percebo que nada do que disse realmente foi dito. Nada do que pensei realmente veio à tona. Continuo sendo normal.
Os olhos que olham, olham outras coisas. As bocas que falam, riem, beijam - outras coisas. Os pensamentos felizes, engraçados, positrônicos - outras coisas. Afinal, sobram apenas as categorias. Categorias coladas na extensão de meus braços, olhos, pernas. A mente ainda está livre, sim, absolutamente livre. Confusa, tremida, demente. Mas livre.