2+2=5
Eu escrevo seu número no meu caderno mental por mais que nunca tenha recebido ou talvez tenha memória para guardá-lo por mais do que cinco minutos. Penso que existem distâncias e distâncias, algumas talvez insuperáveis, algumas outras pequenas de tal forma que chegam a ser descritíveis num pedaço de papel, mas aquela que me separa de seu número ou algo mais interessante que isso se torna quase um abismo colossal de palavras não ditas. Ou talvez palavras ditas, entretanto mal ouvidas como se realmente já estivessem nesse abismo para início de conversa, não é?
Por dias a idéia de oito (abstratos) números vagam pela minha mente, clamando por uma mensagem que seja, ou pelo menos coragem para tomar uma atitude maior do que idéias idéias e idéias. E um pouco de pedido divino. Rezo para que o toque do alarme que por coincidência é o mesmo que uma chamada desconhecida seja na verdade o seu telefone discando para o meu por alguma obra muito da engraçada pregando uma peça em forma de flecha com coração nas extremidades.
Pareço uma princesa esperando o conto de fadas, estou ciente. Posso negar por horas essa necessidade telefônica, por assim dizer, mas seriam horas perdidas de vigília em frente à estação de meu mais novo melhor amigo que fará um trim como se zombasse da desgraça alheia, mas não o condeno! Cena mais típica não há: troque meu sexo e ambos sabemos - eu o senhor azul - que isso simplesmente se repete todo dia. O problema é o desfecho da história. Veja - por mais que não saiba se a esta altura falo com o interlocutor, com o dono do futuro possível telefonema ou o próprio transmissor da ligação -, usar a palavra ‘problema’ é algo muito relativo. Em outros casos, tudo iria dar certo. Já no meu…
Decido quebrar a ligação meramente ocular entre mim e o telefone e abro minha página de recados. Nada novo. Quanta calamidade, nem uma propaganda? Mas sei na superficiezinha do meu âmago que nem que tivesse cento e cinquenta recados novos recados e três quartos fossem pessoas sexualmente interessadas em mim… nada disso faria diferença. Quero um recado em particular, justamente aquele que não vem. Acabo sendo seco para com todos os sendo e cinquenta que nesta visita simplesmente não existem, mas tenho noção que mais cedo ou mais tarde virão.
Queria apagar memórias ao mesmo tempo que não queria e apagar sua existência, mas me parece que nada sobraria. Apenas o seu número. Vazios e mais vazios que nem os números de toda a américa do sul (e do norte) poderiam preencher em minha cabeça juvenil. Amo matemática e nem um bloco com milhões e milhões de contas preencheriam tal vazio. Incrível como uma infinidade de números, possibilidades e probabilidades se tornam um nada gigantesco diante de oito mínimos dígitos de um número telefônico que no final das contas nunca vai aparecer no meu visor.
Toca o telefone e penso de prontidão que não posso ter esperanças. Você não sabe meu número! E se tiver descoberto? E se tiver perguntado a alguém e resolvesse ligar, assim, como quem não quer nada? E se tiver olhado naquele site que tem todos os telefones do mundo que eu não conheço e esteja ligando assim, às onze da noite?
Não, não mora ninguém como esse nome aqui. Nada, boa noite.