Sigam-me Ratos e Crianças
Mas estava em um beco. Cordas de violão sussurravam pelas paredes o que ela gostaria de ter dito e não dito ao mesmo tempo em que as latas de lixo poderiam representar num tom irônico que a irritava tanto o desperdício de seus últimos momentos. Sua respiração soava como se estivesse aspirando litros e mais litros de não apenas poluição urbana, mas também um peso que não havia nascido para suportar. Seus pés queimavam como um deserto à noite e suas veias já não pulsavam mais, portanto não conseguia mais se mexer. Ela era loira.
Outros instrumentos preenchiam o silêncio sepulcral, mas seus ouvidos não doíam mais. Vários e vários decibéis avançavam como armaduras tentando reviver o rei urso domado jogando cordas e mais cordas mas ela apenas sorria. Seguir à melodia era uma opção? Talvez… e dançaria, como se pudesse, mas dançaria, e a melodia, a faria ofegar, como um flautista ofega, após uma apresentação. E escorregaria numa branca mentira, talvez envolvida por algum sentimento de desejo alheio?
Nunca. O esquecimento a varreria nas forças de um bruto aspirante à cavalheiro, como se nunca existisse, uma borracha cruel que de branca nada teria. Ah, o esquecimento. Mentir e esquecer são ilusões fabricadas por um cérebro nada do humorístico, talvez não seja nem um cérebro, e no entanto, não tão ilusões. Mentiras se liberam involuntariamente. O esquecimento, bem, o esquecimento é dos males o mais inevitável. Perpetuar-se é deprimir-se. Lembra-se de si mesma, deitada ali naquele beco? Talvez.
No limbo das sensações nada resta, sem querer ser estraga-prazeres. Não há moveimento e talvez tampouco audições, tampouco lembranças pois já fomos pegos como qualquer terráqueo, o e medo de morrer já não existe pois o sentimento de medo é apenas um conceito distante, abstrato, desligado. As falas que não poderia nunca mais dizer e as falas que já tinha dito mergulhadas em culpa ou talvez arrependimento queriam voltar para si e se re-arranjar como se de lá fossem sair novas chances de diálogos e decisões. Debaixo da cama, nas sombras.
Vejo uma mão ou seria uma luz ao que meu corpo fica completo de medo e medo uma aproximação vem e vem a pegar-me o que faço pois a melodia já não é nem um pouco calma e o inferno pessoal parece tomar uma proporção mais real do que seus pesadelos já querem dizer e há muito não conseguem. E volta a caixa de música…
…eu deveria ter vivido, ela e eu pensamos, pois não poderíamos nunca mais aproveitar a tal caixa de música, e nós somos apenas um ser nesse momento, ofegante, errante. Os lixos já não são lixos e as luzes do beco que já não são apenas músicas, antes ressoantes como uma bateria isolada agora são apenas uma lembrança. A cidade está longe e nunca mais poderia chamar crianças e ratos para me seguirem, pois perdi minhas flautas, minhas lembranças, minha felicidade.
Gostaria de viver para sempre nessa melodia ao que nunca aproveitei-a e de repente me bate de supetão! EU não poderia voltar, nem você, nem nós, e agora estamos perdidos. É hora de despedirmos-nos, mesmo que não tenhamos reles noção de gramática agora que nosso ou seria vosso? arrependimento bateu, e bate, e baterá para toda a eternidade!