Archive for May, 2008

Amanha as coisas vão mudar e eu nem posso esperar

Wednesday, May 28th, 2008

Eu sei que a gente se acostuma à dor. Mas não devia. E não devia mesmo, porque se conformar com isso é o maior sinal de fraqueza que existe no mundo. Sei também, que a gente se acostuma a mandar sinais de fraqueza o tempo todo. A gente se acostuma a se apegar às pessoas rapidamente e considerá-las inestimáveis. Mas a gente também se acostuma a ficar triste quando percebemos que esse sentimento não é nem um pouco recíproco. Pelo contrário.

Eu sei que a gente comete erros e se acostuma com eles, e isso é outro erro. Eu sei que nos acostumamos a deitar na cama trazendo um arrependimento por cima do outro, como uma pilha de afazeres para dia-de-são-nunca.

A gente se acostuma a tomar um “agora não” e, sinceramente, chega uma hora em que para revelar, não precisa de muito esforço. Nós nos acostumamos as piores coisas. E as coisas boas, coitadas, sempre chegam após uma surpresa agradável.

Acostumanos-nos a tomar foras e parar de falar com certos amigos, e depois de um tempo, essa amizade já virou um passado distante, quase virtual. E os olhos com que víamos esse amigo, com tanta amabilidade, torna-se odioso, envenenado.

A gente se acostuma a sonhar acordado e depois debochar desse mesmo sonhos. Acostuma-se a amar alguém acom todas as forças pra esse alguém não ficar sabendo nunca.

A gente se acostuma, no final de contas, a fazer tudo igual, em todos os dias, momentos, passagens. A gente se acostuma a todos os dias viver uma vida já vivida. No entanto, esquecemos que cada um de nós é um ‘um’ único, e acho que a única coisa com a qual não nos acostumamos é a parar de se acostumar com as coisas.

(12/09/07)

Strobe lights and blown speakers

Saturday, May 24th, 2008

Ano-novo de 2007 para 2008.

Família decide fazer um jantar, mas como a mãe está trabalhando - produtora musical - os próprios irmãos se unem pra fazer a comida. Fica tudo muito bom. Todos se sentam à mesa, mas como nessa família grande todo mundo só fala o que pensa, já surge briga. O penúltimo, Pedro, não consegue segurar suas intermináveis e intermináveis ironias direcionadas a… quem quer que fosse. Ele simplesmente não consegue. A família fica em clima mas mesmo assim se diverte, enquanto comem e pensam no futuro. Todos estão pensando no futuro e de fato, falando sobre ele. Brigas, mas risos. Essa família está sempre assim. O jantar se passa e todos estão satisfeitos, cunhados, irmãos, amigos. Alguns decidem ficar em casa… mas outros, na ânsia e euforia de fazer e ser melhor decidem sair e ver os fogos na praia - afinal… Rio de Janeiro. Pra quê.

A praia do Leme é a mais próxima, de modo que os aventureiros decidem que é lá que vão mesmo. O túnel está cheio de pessoas cantando e cantando à espera de mais um (chato) (igual) ano (mas novo) e os ônibus passam engarrafados cheio de pessoas encantadas com tanta barulheira num espaço tão curto de tempo. A família fica no túnel por quase quinze minutos. Pessoas e mais pessoas na rua, vendedores, grupos de amigos, ravistas, punks, homens vendendo antenas e enfeites para a virada do ano. Um verdadeiro carnaval. Já na praia, vários telões estão espalhados e toca uma música (tudo que quer me dar, é demais, é pesado) popular e inúmeras pessoas dançam pensando que daqui a pouco terão a tão esperada contagem. Pessoas (chateadas) em barracas. Pessoas (deprimidas) radiantes. Pessoas (procurando) com esperança.

Os fogos começam após meia hora depois da família chegar. Só que não começam na hora certa. Não tem contagem, não se para a música e onde estão as esperanças? E os anseios? E os estouros? Ninguém pensou nisso ainda e os fogos já estão estourando, enchendo os olhos de quem quisesse ver. Pessoas assustadas mas felizes tiram fotos e mais fotos de um momento que deveria ficar na memória de uma forma boa. Pessoas prometem amor. Pessoas de outras praias também começam a prometer amor. Pessoas pensam em mudanças. E surge um efeito novo, aquele que não seria visto em mais nenhuma praia naquela noite e que na verdade não era efeito coisa nenhuma.

Olhos de famílias felizes e aventureiras se enchem à medida que os fogos parecem chegar mais perto. Ou não parecem. Os fogos estão de fato chegando mais perto. Ouve-se um grito: CORRE! E inúmeras pessoas correm, e correm fugindo de agora pequenos meteoros terrestres caindo em cima delas mesmas. Dessas mesmas famílias que há dez segundos só conseguiam pensar em (tristeza) felicidade, agora elas estão apenas ecoando em seus cérebros uma única informação puramente fisiológica para não contrariar o instinto de todos os seres vivos de sobrevivência. Correr.

Fim de ano no Rio de Janeiro termina com inúmeros fogos caindo em cima das pessoas. Morte? Não houve. Ou houve? De esperanças, de felicidade? Talvez. A família aventureira não desiste - continua, agora parando na praia pra ouvir uma música e depois voltando a andar simplesmente por… andar. O penúltimo que antes ironizava aos outros ironiza a si mesmo, pois perdeu o chinelo na correria. O penúltimo anda pelas ruas sujas e fétidas do calçadão descalço, pensando que isso acarretará uma doença. Bela maneira de começar o ano. Ele lembra do ano novo do ano passado - tão ruim quanto - e pensa que 2007 foi um ano maravilhoso, o melhor de sua vida. Sorri. Dessa vez ele não está sendo irônico.

Andam por horas, pessoas vão embora e brigam. A Sobra da Família agora estaciona em uma rua conhecida do bairro esperando outras companhias, que não chegam e de fato abandonam a Sobra. Milhões de pessoas passam e vêem as Sobras brigando e só brigando. Pessoas que estão esperantes ou estavam, pessoas que vão tomar a maior bebedeira do ano. Irônico. De ironia estão suficientes. Pegam um táxi e voltam pra casa, às 5 da manhã, frustrados, ressentidos e brigados. Nunca mais, o irônico pensa. Hoje ele ri.

Mas na época ele só conseguia pensar na virada do ano anterior - horrível - e lembrar-se de como o ano à seguir tinha sido bom. Bem, de fato, 2008 prometia.

Exit Music (For a Film)

Thursday, May 22nd, 2008

Wake, from your sleep
the drying of your tears
today we escape
we escape
pack, and get dressed
before your father hears us
before all hell breaks loose
breathe, keep breathing
don’t lose your nerve
breathe, keep breathing

i can’t do this alone

sing us a song, a song to keep us warm
there’s such a chill, such a chill…

(tirei o resto, porque não é o que eu queria dizer)

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- Thom Yorke

Vergonha da minha geração

Monday, May 19th, 2008

Tem uma menina na minha sala que está grávida - ela tem quinze anos. Engraçado porque eu já sabia que era normal as pessoas engravidarem nessa idade, mas quando você vê isso com seus olhos parece que as coisas tomam uma proporção do tamanho de um tiro na testa. Você começa a imaginar: o que vai ser dessa menina? O que vai ser dessa criança? Quem são os pais irresponsáveis dessa pessoa? Olho pra ela e aquele barrigão absurdo e penso no quanto tenho vergonha da geração em que nasci. Na verdade é uma coisa que eu penso tanto todos os dias que já cansei de tentar encontrar argumentos e simplesmente desisti de viver no meu tempo.

Quando olho em volta, parece que está tudo às avessas. Os adolescentes da minha idade de hoje são, na quase totalidade, um bando de cabeças fúteis que só pensam nas coisas mais irrelevantes possíveis. Meus chamados “amigos” agem como se tivessem vinte e cinco anos saindo aos Sábados e Domingos, sem exceção. As meninas dessa idade, começando pelos treze (!!) anos só sabem falar em pegar garotos - geralmente, no mínimo, três anos mais velhos - e em beijar, virgindade, sexo. Os meninos são apenas uma versão mais retrógrada e instintiva, olhando para as meninas mais novas como um pedaço de carne. Estudar é um termo engraçadíssimo usado para denominar algo estranho que os “nerds” fazem, mas que é tudo uma gande perda de tempo.

A escola é praticamente um antro de pura vergonha alheia. Começando pelas aulas, o comportamento dos meus companheiros de geração é algo no mínimo deplorável. As pessoas que estudam porque se importam com o futuro ou simplesmente porque gostam, não são populares. São excluídas. Elas talvez não liguem, pois ganham muito mais na exclusão de um rebanho desgovernado, mas a “popularidade” é algo almejado como se fosse mais importante do que garantir sua própria vida. Sair, conhecer gente e pegar inúmeras meninas ou meninos é um sinal de extrema felicidade. Só que não é. A começar pelo termo “pegar”. Beijar uma pessoa na boca virou apenas o sinônimo de adquirir um objeto que você almeja. Ninguém mais dá valor a ninguém. As pessoas “feias” não podem ser mais feliz. Não podem nem procurar a felicidade, pois seriam “desesperadas”.

A música - que na época das minhas irmãs era Lulu Santos, Cazuza, Renato Russo - se tornou nada mais, nada menos do que medíocre. Ninguém pensa pra fazer música. É um festival de sexo com uma batida que não é digna nem de dez minutos de escola de música com umas rimas que até eu consigo fazer melhor. Incrível, mais ainda, são as pessoas agindo como se aquilo sinceramente fosse bom. Não teremos uma década marcada, não teremos nosso próprio Beatles, ou Jovem Guarda, nem nada. Somos uma geração sem identidade. Ou melhor, uma identidade sexual e apelativa. Prefiro pensar que não temos identidade.

O filme que mais fez sucesso da última vez que olhei era Tropa de Elite. Não que precise de explicações porque todo mundo já viu, mas é basicamente um monte de policiais matando traficantes. Engraçado que filmes interessantes e que de fato acrescentam algo para alguém não fazem o menor sucesso. Livros? Ninguém lê. Ler é coisa de nerd. Ler é coisa de quem não tem amigos. Falando em amigos, conhecer uma pessoa é virar amigo na mesma hora. Você pode nem confiar na pessoa que está do seu lado e já a chama de “amigo”.

“Beber” é sinônimo de “cantar vantagem”. Quanto mais histórias de bebedeira, mais bem sucedido o indivíduo é. Tal artifício funciona inversamente proporcional para boas notas. Quanto mais inteligente e esforçado é o sujeito, mais ele é um perdedor. Está tudo cada vez mais deplorável e lamentável. Meninas só pensam em meninos e meninos só pensam em meninas. Ninguém tem mais merda nenhuma na cabeça a não ser querer fazer sexo e sair por cima de todo mundo, agindo como se “beijar mais” fosse um sinônimo de poder. Grande dificuldade beijar muito. Quero vê-los fazendo exercícios de física.

Não posso falar pelos mais velhos, pois esses foram, talvez, muito mais sortudos. Não me considero ‘à frente’ de ninguém, simplesmente não combino com esse puteiro em que estão vivendo meus companheiros de adolescência. Meu melhor amigo tem trinta anos de idade e não consigo encontrar alguém um quarto significativo pra mim que tenha pensamentos parecidos e não tenha essa idade. A preguiça de pensar, junto com a democratização absurda do sexo transformaram a minha geração numa grande porcaria. Queria ter brincado de pião a ter crescido jogando Gunbound. Queria ouvir poesia quando saio pra ouvir música. Queria sair nas ruas protestando que fosse por alguma coisa que não fosse a liberação da maconha.

Nasci numa época em que não existe mais nada disso que eu mais queria ter feito parte. E pior do que isso: é vergonhoso. Daqui a vinte anos vou ter a maior vergonha de dizer “na minha época…” como os idosos o fazem com orgulho. Não teremos nada pra contar dessa época. Aventuras alcoólicas ou sexuais não contam.

Demonocracia

Sunday, May 18th, 2008

Ele acabara de se tornar um assassino!
Quis voltar alguns minutos no tempo em que brandia seu ódio num punho, e noutro uma lâmina. Quis voltar para o dia em que não descobrira tudo o que sempre ansiara não descobrir nunca, mas agora achava que perdera tanto, mas tanto tempo ansiando - nunca mais voltaria a ser o mesmo. Trocara de nome. Poderia ser Pedro, André, João. Mas nada disso importava - agora ele era um assassino. Daqueles introduzidos na sociedade pelo jornal e terminados de boca-à-boca. Bocas em formato de algemas. Seria fria a cela da cadeia? Seria feliz?

Seria pego? Balançou a cabeça. A cadeia não era tão ruim assim - sabia. Pois sua consciência em si já dava um gostinho da metálica cela em que pelo menos o deixariam só. Mas deixariam mesmo? Queria pensar por uns tempos sozinhos, mas riu ao desconfiar que precisava menos do que trinta anos para tal. Pois balançou a cabeça de novo. Não queria ser pego. Só queria um tempo pra pensar e esvaziar a cabeça de tanta informação - pois agora era um assassino! Sentou-se ao lado do corpo esperando uma reação, fosse de um espírito vingativo, fosse de uma sirene - em metáfora. Fosse de um movimento de um possível futuro ex-cadáver. E Deus, como queria que fosse isso.

Veio a sirene.
O que faz aqui ao lado deste cadáver? Chame a ambulância!
Disse que estava passando a vira o cadáver, mas seus olhos mentiram. Não porque choraram ou fraquejaram, não porque as sobrancelhas ensaiaram um calabouço. Simplesmente porque mentiram. Simplesmente porque olhos mentem quando querem. E a sirene deve ter percebido, pois disse em plenos pulmões:
ASSASSINO!

Foi-se a sirene. Mas não se foi por suas próprias pernas. Era, mais uma vez, um punho com lâmina. Mas no outro, não havia mais o ódio. Era apenas o medo, puro, simples, descontido. E o medo faz coisas indescritíveis. A sirene jaziu ao lado do desalmado. E agora era assassino duas vezes. Duas vidas. Duas pessoas que agora conheciam o que havia por trás da linha que dividia a vida e a morte. Duas pessoas que acabavam de descobrir o mistério de toda a vida humana e desmentir mais de mil crenças diferentes. Duas pessoas cujas vidas tinham sido tiradas por ele.

De repente se sentiu tão poderoso.