Demonocracia

Ele acabara de se tornar um assassino!
Quis voltar alguns minutos no tempo em que brandia seu ódio num punho, e noutro uma lâmina. Quis voltar para o dia em que não descobrira tudo o que sempre ansiara não descobrir nunca, mas agora achava que perdera tanto, mas tanto tempo ansiando - nunca mais voltaria a ser o mesmo. Trocara de nome. Poderia ser Pedro, André, João. Mas nada disso importava - agora ele era um assassino. Daqueles introduzidos na sociedade pelo jornal e terminados de boca-à-boca. Bocas em formato de algemas. Seria fria a cela da cadeia? Seria feliz?

Seria pego? Balançou a cabeça. A cadeia não era tão ruim assim - sabia. Pois sua consciência em si já dava um gostinho da metálica cela em que pelo menos o deixariam só. Mas deixariam mesmo? Queria pensar por uns tempos sozinhos, mas riu ao desconfiar que precisava menos do que trinta anos para tal. Pois balançou a cabeça de novo. Não queria ser pego. Só queria um tempo pra pensar e esvaziar a cabeça de tanta informação - pois agora era um assassino! Sentou-se ao lado do corpo esperando uma reação, fosse de um espírito vingativo, fosse de uma sirene - em metáfora. Fosse de um movimento de um possível futuro ex-cadáver. E Deus, como queria que fosse isso.

Veio a sirene.
O que faz aqui ao lado deste cadáver? Chame a ambulância!
Disse que estava passando a vira o cadáver, mas seus olhos mentiram. Não porque choraram ou fraquejaram, não porque as sobrancelhas ensaiaram um calabouço. Simplesmente porque mentiram. Simplesmente porque olhos mentem quando querem. E a sirene deve ter percebido, pois disse em plenos pulmões:
ASSASSINO!

Foi-se a sirene. Mas não se foi por suas próprias pernas. Era, mais uma vez, um punho com lâmina. Mas no outro, não havia mais o ódio. Era apenas o medo, puro, simples, descontido. E o medo faz coisas indescritíveis. A sirene jaziu ao lado do desalmado. E agora era assassino duas vezes. Duas vidas. Duas pessoas que agora conheciam o que havia por trás da linha que dividia a vida e a morte. Duas pessoas que acabavam de descobrir o mistério de toda a vida humana e desmentir mais de mil crenças diferentes. Duas pessoas cujas vidas tinham sido tiradas por ele.

De repente se sentiu tão poderoso.

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