Vergonha da minha geração
Tem uma menina na minha sala que está grávida - ela tem quinze anos. Engraçado porque eu já sabia que era normal as pessoas engravidarem nessa idade, mas quando você vê isso com seus olhos parece que as coisas tomam uma proporção do tamanho de um tiro na testa. Você começa a imaginar: o que vai ser dessa menina? O que vai ser dessa criança? Quem são os pais irresponsáveis dessa pessoa? Olho pra ela e aquele barrigão absurdo e penso no quanto tenho vergonha da geração em que nasci. Na verdade é uma coisa que eu penso tanto todos os dias que já cansei de tentar encontrar argumentos e simplesmente desisti de viver no meu tempo.
Quando olho em volta, parece que está tudo às avessas. Os adolescentes da minha idade de hoje são, na quase totalidade, um bando de cabeças fúteis que só pensam nas coisas mais irrelevantes possíveis. Meus chamados “amigos” agem como se tivessem vinte e cinco anos saindo aos Sábados e Domingos, sem exceção. As meninas dessa idade, começando pelos treze (!!) anos só sabem falar em pegar garotos - geralmente, no mínimo, três anos mais velhos - e em beijar, virgindade, sexo. Os meninos são apenas uma versão mais retrógrada e instintiva, olhando para as meninas mais novas como um pedaço de carne. Estudar é um termo engraçadíssimo usado para denominar algo estranho que os “nerds” fazem, mas que é tudo uma gande perda de tempo.
A escola é praticamente um antro de pura vergonha alheia. Começando pelas aulas, o comportamento dos meus companheiros de geração é algo no mínimo deplorável. As pessoas que estudam porque se importam com o futuro ou simplesmente porque gostam, não são populares. São excluídas. Elas talvez não liguem, pois ganham muito mais na exclusão de um rebanho desgovernado, mas a “popularidade” é algo almejado como se fosse mais importante do que garantir sua própria vida. Sair, conhecer gente e pegar inúmeras meninas ou meninos é um sinal de extrema felicidade. Só que não é. A começar pelo termo “pegar”. Beijar uma pessoa na boca virou apenas o sinônimo de adquirir um objeto que você almeja. Ninguém mais dá valor a ninguém. As pessoas “feias” não podem ser mais feliz. Não podem nem procurar a felicidade, pois seriam “desesperadas”.
A música - que na época das minhas irmãs era Lulu Santos, Cazuza, Renato Russo - se tornou nada mais, nada menos do que medíocre. Ninguém pensa pra fazer música. É um festival de sexo com uma batida que não é digna nem de dez minutos de escola de música com umas rimas que até eu consigo fazer melhor. Incrível, mais ainda, são as pessoas agindo como se aquilo sinceramente fosse bom. Não teremos uma década marcada, não teremos nosso próprio Beatles, ou Jovem Guarda, nem nada. Somos uma geração sem identidade. Ou melhor, uma identidade sexual e apelativa. Prefiro pensar que não temos identidade.
O filme que mais fez sucesso da última vez que olhei era Tropa de Elite. Não que precise de explicações porque todo mundo já viu, mas é basicamente um monte de policiais matando traficantes. Engraçado que filmes interessantes e que de fato acrescentam algo para alguém não fazem o menor sucesso. Livros? Ninguém lê. Ler é coisa de nerd. Ler é coisa de quem não tem amigos. Falando em amigos, conhecer uma pessoa é virar amigo na mesma hora. Você pode nem confiar na pessoa que está do seu lado e já a chama de “amigo”.
“Beber” é sinônimo de “cantar vantagem”. Quanto mais histórias de bebedeira, mais bem sucedido o indivíduo é. Tal artifício funciona inversamente proporcional para boas notas. Quanto mais inteligente e esforçado é o sujeito, mais ele é um perdedor. Está tudo cada vez mais deplorável e lamentável. Meninas só pensam em meninos e meninos só pensam em meninas. Ninguém tem mais merda nenhuma na cabeça a não ser querer fazer sexo e sair por cima de todo mundo, agindo como se “beijar mais” fosse um sinônimo de poder. Grande dificuldade beijar muito. Quero vê-los fazendo exercícios de física.
Não posso falar pelos mais velhos, pois esses foram, talvez, muito mais sortudos. Não me considero ‘à frente’ de ninguém, simplesmente não combino com esse puteiro em que estão vivendo meus companheiros de adolescência. Meu melhor amigo tem trinta anos de idade e não consigo encontrar alguém um quarto significativo pra mim que tenha pensamentos parecidos e não tenha essa idade. A preguiça de pensar, junto com a democratização absurda do sexo transformaram a minha geração numa grande porcaria. Queria ter brincado de pião a ter crescido jogando Gunbound. Queria ouvir poesia quando saio pra ouvir música. Queria sair nas ruas protestando que fosse por alguma coisa que não fosse a liberação da maconha.
Nasci numa época em que não existe mais nada disso que eu mais queria ter feito parte. E pior do que isso: é vergonhoso. Daqui a vinte anos vou ter a maior vergonha de dizer “na minha época…” como os idosos o fazem com orgulho. Não teremos nada pra contar dessa época. Aventuras alcoólicas ou sexuais não contam.
May 20th, 2008 at 6:34 pm
Pelo visto, não mudou muita coisa desde a época que eu estudava… Bem, considere que eu me formei no 2º grau em 2001, então não faz muito tempo! Desde já esse tipo de coisa me chocava. Ainda mais porque eu era “A” criançona e cagava pra maioria das coisas que importavam aos outros. Bem, eu era da turma dos CDFs, e meu negócio era estudar para sair logo daquela cidade sem futuro! Por sinal, eu consegui. A galera que ficou está lá, sendo empacotador de supermercado, todas as meninas grávidas e perspectiva de futuro zero!