Na cama

Na sétima noite seguida que sonhou com ele, resolveu que iria falar a respeito. Como quem não queria nada, disse:
- Sonhei com você…
Ele levantou as sobrancelhas, como quem não esperava aquilo e quase como se dissesse que tal fato fosse lisonjeiro. Perguntou:
- E foi bom?
Não sabia responder (sabia?). Talvez se respondesse, talvez se soubesse, provavelmente saberia porque estava sonhando há tanto tempo com a mesma pessoa. O mesmo sonho. Todos os dias. E não podia admitir pra ninguém se estava gostando ou não.
E mesmo não soubesse (ou soubesse?), respondeu.
- Claro que foi.
Ele sorriu.
Sorriu. Iria dizer. Pois não agüentava mais sete, quatorze, vinte e oito noites.
E admitisse ou não, gostava. Gostava. Da forma mais simplória, crua, literal. Fundamental. Sem qualquer dúvida. Diria isso? Diria a si?
- Eu te abraçava.
Ficou olhando para ele, ao que viu seu sorriso de cabide se transformando aos poucos numa perplexidade talvez um pouco maior do que a esperada.
- Só isso?
Decepcionou-se. De repente perdeu a vontade de falar. E perdeu o gosto pelo abraço.
Há quanto tempo sonhara em abraçá-lo. Não apenas num sentido em que sonhava às noites. Sonhava mesmo.
E agora era só isso.
Decepcionou-se.

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