Amor Azul
Um belo dia descobriu-se apaixonado pelo céu. Andava de avião sempre que podia, olhando as nuvens deslumbrado com aquela imensidão tão enigmática quanto seu próprio sentimento ao ver o imenso mar. Pensava que queria, de alguma forma, fazer parte de tudo aquilo, voar por entre as nuvens, sentir todo o azul sê-lo, virar harmonia. Andar de cabeça pra baixo e sentir, que todo aquele planeta acima de sua cabeça é um grande colapso de linhas de trem, e que somente um ser muito feliz e privilegiado para fazer parte de tanta tranqüilidade.
Queria ser piloto, e como piloto, aprenderia sobre todas as curvas e linhas que desenham o mundo azul em que viveria. Aprenderia todos os assuntos que as nuvens cochicham entre si… desviando de cada uma delas, para conseguir sua simpatia e enfim, amizade. Sonhava constantemente em pular de asa-delta, ou melhor, ser uma. No entanto, não seria amarelo ou vermelho ou verde, como constantemente seriam suas companheiras. Seria azul. Seria azul, pois não se perdoaria se estragasse aquela harmonia que tanto ama. E o medo de cair, tão comum na sua condição de ser humano… Não seria nada. Não cairia, sabia, pois seria aparado por suas mais novas amigas brancas. Não cairia, sabia, pois quereria com tantas e todas suas forças continuar tão perto daquilo que nada no mundo o separaria de seu eterno amor.
Tirava fotos e mais fotos do seu querido, quando o sol se punha e nascia, quando a luz faltava e enchia, quando as nuvens escureciam ou clareavam. Quando a lua era nova e velha, cheia e vazia. Quando era virada de ano novo e milhares de fogos iluminavam a escuridão mais do que qualquer coisa no mundo. O foco seria sempre na casa e não no hóspede - apenas para ele - mas já bastava. Amava tanto o céu, mas tanto que não se importava que fosse o único.
Ia à praias e pouco se importava com pessoas, desnudas, coitadas… nenhum músculo se comparava ao que estava no fim da imensidão. E só de ouvir falar em imensidão já sentia uma sensação de grandeza extrema, sólida… e quando fosse se banhar, o azul do mar nada seria em encontro com o azul do céu. Dizia aos vendedores de pipoca que faturariam milhões e milhões dele se vendessem saquinhos de azul e compraria dos vendedores de algodão-doce todos os exemplares incolores apenas num gesto simbólico. Espantaria os pombos com areia, pois estes podem chegar perto de seu amado, e isso provocaria ciúmes.
Descobriu-se irremediavelmente apaixonado por uma coisa que nunca poderia ter, um amor platônico. Vive tendo esperança de que, ao morrer, vire parte de todo o mundo, e assim, possa fazer pelo menos um pouquinho de parte de seu gigante azul preferido. Enquanto isso, é apenas um admirador…