Faust Arp

Há dois anos, eu passei por uma bela de uma transformação. Eu estudava numa escola onde eu amava todos os meus colegas e era amigos de todos, mas a escola era pequena e acabou fechando. Então fui colocado num colégio aqui do lado de casa - literalmente do lado - onde não conhecia ninguém e as pessoas não poderiam ter menos a ver comigo. E eu fui obrigado a conviver com um monte de gente que, sinceramente, era tão diferente de mim quanto preto é de branco. Todos os meninos jogavam futebol e adoravam pagar de populares da noite e cachaceiros. As meninas todas agiam como se tivessem dezenove anos para cima e todas, sem exceção, só falam de sair, beber, pegar meninos. Eu nunca tive muito a ver com isso (até hoje não tenho)… e calhou daquela época eu estar extremamente tímido. Como nunca fui. E comecei a ter umas neuras incríveis e ser tímido de uma forma que nunca imaginei ser… e incrivelmente apenas dentro daquele ambiente.

Foi quando eu me apaixonei pela primeira vez, e aquilo mexeu comigo de uma forma que eu não consigo esquecer até hoje. Sinceramente me tornei uma pessoa amarga e desesperada. Pior do que isso, eu era sozinho. E no topo de tudo isto, eu… não sabia viver. Sinceramente tinha perdido a noção do que era viver. Não conseguia puxar assunto com ninguém nem continuar um, só conseguia ouvir e ser mecânico. Não conseguia fazer coisas normais como comer na hora do recreio sem parecer um completo de idiota. Fiquei me enchendo, de um lado, de rancor dos meus colegas e de amor por uma pessoa praticamente idealizada na minha cabeça. E isso foi uma tortura pra mim. Só pensava nessa pessoa por quem estava apaixonado com um apego desesperado, vivi num mundo da fantasia quase pior no que tenho vivido esses tempos em que eu só pensava nesta mesma pessoa com uma obsessão fria.

Aí eu criei um blog… e me fechei. Sinceramente. Só conseguia agir normal com as pessoas com as quais já agira antes. Não entendo por que fiquei tão mal assim. Entretanto, queria falar de como tenho um medo da porra de voltar àquilo, quando voltarem minhas aulas (sim, eu só falo disso). Acontece que naquela época, eu me sentia mais eu mesmo como nunca. Eu fazia as piadas que eu gostava, odiava as coisas que sinceramente GOSTO de odiar e faço as incoerências mais compatíveis comigo. Por mais que mal esteja vivendo exteriormente, hoje em dia, estou me sentindo muito parecido como que estava naquela época, pelo menos comigo mesmo. E qual é o problema, você me pergunta? O problema é que quando eu mudei, comecei a agir talvez muito mais hipocritamente do que nunca (sou uma pessoa hipócrita, admito plenamente), gostar de futebol, sair, beber, enfim… misturei, me senti normal e arranjei um bando de amigos.

Agora estou me sentindo como me sentia lá em 2006, quando meu coração batia forte por uma pessoa da qual hoje praticamente sinto pena. Mas não é por isso que me sinto. Na verdade é longe de ter um amor platônico. Estou me sentindo eu mesmo. Reclamando das coisas que sempre reclamei, fazendo o que quero, falando o que quero, ouvindo o que quero sem me importar com a opinião de ninguém. Agindo da forma mais coerente comigo mesmo. E me dá um medo de passar por aquela exclusão, sensação de ser uma pessoa positrônica. Tenho muito, muito, muito medo. Mas também não queria ser preenchido por hipocrisia, não mesmo… alguém me ajuda? Alguém me ajuda a entender se o meu problema é com o universo ou com a idade? Ou comigo, que não me dou por satisfeito por nada?

O que importa é que não é só agora que estou com medo, já tive muito medo de voltar a ficar assim. No curso, no colégio novamente, no colégio onde estou fazendo técnico… é claro que não fiquei, em nenhuma das situações… mas e o medo? Vou ter para sempre? Não quero voltar a ser um ser triste que se apega no amor ou num blog que seja, pra não ficar louco de timidez e medo de ser alguém?

A verdade é que queria mais que tudo que o mundo fosse tão parecido comigo como eu queria que fosse. Por mais que adore a sensação de ser diferente.

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