Tick tock
Metros à frente, viu seu primeiro amor. Ali, repousava como se nada tivesse feito, como se o tempo não tivesse de fato passado. Da exata maneira que lembrava estar há um, dois anos atrás. Atravessou a rua, de modo a evitar, assim que o presságio de sua presença o abateu a metros de distância. Parecia olhar em sua direção, se iludiu, pela milésima-centésima vez. Só que dessa vez pouco o importava, na verdade, assim o quis. Sentou-se num lugar invisível ao seu, uma vez, tão desejado, tão quisto. Olhou sem tentar olhar, lembrou sem tentar olhar, ao que pensava, não é possivel que isto ainda me abale, não é possivel que isto ainda me abale, não é possivel que isto ainda me abale. Mas abalava. Pura crueldade, seu coração começou a bater, sua boca seca, isso a uma distância de talvez, quilômetros. Não sentia um assomo do antigo sentimento, na verdade, eram apenas lembranças por forte demais para lhe deixar na indiferença. Chegasse mais perto, sentiria aquele perfume que o inebriava, aquela voz que o deixava absolutamente quebrado e encantado, aquelas roupas de sempre, lindas, lindas. Não se permitiria a isso, mas é claro. Num gesto que estava habituado a fazer de brincadeira, fez das mãos um formato de arma de fogo e apontou para o próprio pescoço. Hesitou, e antes de fazer o barulho de tiro, apontou para seu primeiro amor e atirou, com toda a força. Seus ressentimentos, descasos, agrados, tudo. Tudo o que já amara um dia e duvidava que se tivesse outra chance amaria novamente. Toda a porra da sua platonicidade indiferente. Mandou tudo isso numa bala imaginária que atravessou jardins, portão, tudo.
Se sentiu extremamente orgulhoso.