Archive for the ‘Eu que fiz, ok?’ Category

Gradação, Gradações

Saturday, September 27th, 2008

Ei, está um silêncio por aqui. Nenhum telefonema, nenhuma voz, nada para se apegar. Nada para agarrar. Nenhuma voz para destrinchar, nenhuma palavra para pegar e transformar numa sentença incrível cheia de significado, sentimentos. Nada. Divisão por 1. Nenhuma mensagem, nenhum momento em que todas as coisas convergem para algo ruim ou bom, nada disso. Simplesmente o puro vazio, silêncio, a solidão em forma de eco que ressoa nos ouvidos de uma alma que há tanto não consegue companhia. Ei, tem alguém aí? Tem alguém querendo compartilhar desta solidão, deste puro papel branco? Alguém para escrever, rasurar e escrever as notas da vida enquanto leio? Alguém para ler as minhas? Alguém para dizer que está tudo bem, uma voz? Uma voz. Não há vozes. Não há olás, não há despedidas, muito menos apertos de mãos, abraços, beijos. Não, há apenas sonhos. Apenas sonhos, bonitos em seu espaço de tempo, feios em seu ressoar por horas depois na vida do sonhador. Sonhos que dizem um dia vai ficar tudo bem, mas acordados que dizem que não vai ficar bem coisíssima nenhuma, e que a solidão é um estado social eterno. Social? Seria físico? Seria psicológico? Seria psiquiátrico? Talvez seja psiquiátrico. Talvez suas consequencias. Suas consequencias, de fato. O branco mais branco, e mais branco, e mais branco, e apagado.
Já não há vozes. Nunca houve vozes.
Nunca houve vozes, palavras, conversas, olhares, cuidados, carinhos, remédios. Nunca houve nada, nada, o nada, o só. Ops, o só houve. O só ha uns dias, há. Há uns dias, há. Mais de 1.095 dias, há. Há 6.205, há. O só há. Sempre houve, sempre haverá. Eles - os sonhos - dizem que não, mas mentem. Mentem como uma forma sádica de um subconsciente mal expressado, reprimido, engaiolado. Mentem de uma forma a dizer você nunca terá o que quer, embora possa lhe mostrar. Somente o só não gostaria que mostrassem. Nos dez primeiros minutos, sim. Nas próximas cinco horas, talvez. Entretanto, ao cair da noite, novamente, onde só sente que finalmente será dois, não. Definitivamente não.
Só.
Nenhum telefonema, voz, olhar, sentido, carinho, percepção, companhia. Nenhuma risada, olhar, olhar, olhar, nenhuma voz. Voz, voz, voz. Nenhum beijo, percepção, percepção. Nenhum momento a sós, nenhum momento de dois, nenhum momento em que tudo se concentra no Eu e você. Nenhum telefonema, voz, olhar, conversa, risada, carinho, nenhum, nenhum amor.

Amor Azul

Sunday, July 6th, 2008

Um belo dia descobriu-se apaixonado pelo céu. Andava de avião sempre que podia, olhando as nuvens deslumbrado com aquela imensidão tão enigmática quanto seu próprio sentimento ao ver o imenso mar. Pensava que queria, de alguma forma, fazer parte de tudo aquilo, voar por entre as nuvens, sentir todo o azul sê-lo, virar harmonia. Andar de cabeça pra baixo e sentir, que todo aquele planeta acima de sua cabeça é um grande colapso de linhas de trem, e que somente um ser muito feliz e privilegiado para fazer parte de tanta tranqüilidade.

Queria ser piloto, e como piloto, aprenderia sobre todas as curvas e linhas que desenham o mundo azul em que viveria. Aprenderia todos os assuntos que as nuvens cochicham entre si… desviando de cada uma delas, para conseguir sua simpatia e enfim, amizade. Sonhava constantemente em pular de asa-delta, ou melhor, ser uma. No entanto, não seria amarelo ou vermelho ou verde, como constantemente seriam suas companheiras. Seria azul. Seria azul, pois não se perdoaria se estragasse aquela harmonia que tanto ama. E o medo de cair, tão comum na sua condição de ser humano… Não seria nada. Não cairia, sabia, pois seria aparado por suas mais novas amigas brancas. Não cairia, sabia, pois quereria com tantas e todas suas forças continuar tão perto daquilo que nada no mundo o separaria de seu eterno amor.

Tirava fotos e mais fotos do seu querido, quando o sol se punha e nascia, quando a luz faltava e enchia, quando as nuvens escureciam ou clareavam. Quando a lua era nova e velha, cheia e vazia. Quando era virada de ano novo e milhares de fogos iluminavam a escuridão mais do que qualquer coisa no mundo. O foco seria sempre na casa e não no hóspede - apenas para ele - mas já bastava. Amava tanto o céu, mas tanto que não se importava que fosse o único.

Ia à praias e pouco se importava com pessoas, desnudas, coitadas… nenhum músculo se comparava ao que estava no fim da imensidão. E só de ouvir falar em imensidão já sentia uma sensação de grandeza extrema, sólida… e quando fosse se banhar, o azul do mar nada seria em encontro com o azul do céu. Dizia aos vendedores de pipoca que faturariam milhões e milhões dele se vendessem saquinhos de azul e compraria dos vendedores de algodão-doce todos os exemplares incolores apenas num gesto simbólico. Espantaria os pombos com areia, pois estes podem chegar perto de seu amado, e isso provocaria ciúmes.

Descobriu-se irremediavelmente apaixonado por uma coisa que nunca poderia ter, um amor platônico. Vive tendo esperança de que, ao morrer, vire parte de todo o mundo, e assim, possa fazer pelo menos um pouquinho de parte de seu gigante azul preferido. Enquanto isso, é apenas um admirador…

Na cama

Monday, June 23rd, 2008

Na sétima noite seguida que sonhou com ele, resolveu que iria falar a respeito. Como quem não queria nada, disse:
- Sonhei com você…
Ele levantou as sobrancelhas, como quem não esperava aquilo e quase como se dissesse que tal fato fosse lisonjeiro. Perguntou:
- E foi bom?
Não sabia responder (sabia?). Talvez se respondesse, talvez se soubesse, provavelmente saberia porque estava sonhando há tanto tempo com a mesma pessoa. O mesmo sonho. Todos os dias. E não podia admitir pra ninguém se estava gostando ou não.
E mesmo não soubesse (ou soubesse?), respondeu.
- Claro que foi.
Ele sorriu.
Sorriu. Iria dizer. Pois não agüentava mais sete, quatorze, vinte e oito noites.
E admitisse ou não, gostava. Gostava. Da forma mais simplória, crua, literal. Fundamental. Sem qualquer dúvida. Diria isso? Diria a si?
- Eu te abraçava.
Ficou olhando para ele, ao que viu seu sorriso de cabide se transformando aos poucos numa perplexidade talvez um pouco maior do que a esperada.
- Só isso?
Decepcionou-se. De repente perdeu a vontade de falar. E perdeu o gosto pelo abraço.
Há quanto tempo sonhara em abraçá-lo. Não apenas num sentido em que sonhava às noites. Sonhava mesmo.
E agora era só isso.
Decepcionou-se.

Amanha as coisas vão mudar e eu nem posso esperar

Wednesday, May 28th, 2008

Eu sei que a gente se acostuma à dor. Mas não devia. E não devia mesmo, porque se conformar com isso é o maior sinal de fraqueza que existe no mundo. Sei também, que a gente se acostuma a mandar sinais de fraqueza o tempo todo. A gente se acostuma a se apegar às pessoas rapidamente e considerá-las inestimáveis. Mas a gente também se acostuma a ficar triste quando percebemos que esse sentimento não é nem um pouco recíproco. Pelo contrário.

Eu sei que a gente comete erros e se acostuma com eles, e isso é outro erro. Eu sei que nos acostumamos a deitar na cama trazendo um arrependimento por cima do outro, como uma pilha de afazeres para dia-de-são-nunca.

A gente se acostuma a tomar um “agora não” e, sinceramente, chega uma hora em que para revelar, não precisa de muito esforço. Nós nos acostumamos as piores coisas. E as coisas boas, coitadas, sempre chegam após uma surpresa agradável.

Acostumanos-nos a tomar foras e parar de falar com certos amigos, e depois de um tempo, essa amizade já virou um passado distante, quase virtual. E os olhos com que víamos esse amigo, com tanta amabilidade, torna-se odioso, envenenado.

A gente se acostuma a sonhar acordado e depois debochar desse mesmo sonhos. Acostuma-se a amar alguém acom todas as forças pra esse alguém não ficar sabendo nunca.

A gente se acostuma, no final de contas, a fazer tudo igual, em todos os dias, momentos, passagens. A gente se acostuma a todos os dias viver uma vida já vivida. No entanto, esquecemos que cada um de nós é um ‘um’ único, e acho que a única coisa com a qual não nos acostumamos é a parar de se acostumar com as coisas.

(12/09/07)

Demonocracia

Sunday, May 18th, 2008

Ele acabara de se tornar um assassino!
Quis voltar alguns minutos no tempo em que brandia seu ódio num punho, e noutro uma lâmina. Quis voltar para o dia em que não descobrira tudo o que sempre ansiara não descobrir nunca, mas agora achava que perdera tanto, mas tanto tempo ansiando - nunca mais voltaria a ser o mesmo. Trocara de nome. Poderia ser Pedro, André, João. Mas nada disso importava - agora ele era um assassino. Daqueles introduzidos na sociedade pelo jornal e terminados de boca-à-boca. Bocas em formato de algemas. Seria fria a cela da cadeia? Seria feliz?

Seria pego? Balançou a cabeça. A cadeia não era tão ruim assim - sabia. Pois sua consciência em si já dava um gostinho da metálica cela em que pelo menos o deixariam só. Mas deixariam mesmo? Queria pensar por uns tempos sozinhos, mas riu ao desconfiar que precisava menos do que trinta anos para tal. Pois balançou a cabeça de novo. Não queria ser pego. Só queria um tempo pra pensar e esvaziar a cabeça de tanta informação - pois agora era um assassino! Sentou-se ao lado do corpo esperando uma reação, fosse de um espírito vingativo, fosse de uma sirene - em metáfora. Fosse de um movimento de um possível futuro ex-cadáver. E Deus, como queria que fosse isso.

Veio a sirene.
O que faz aqui ao lado deste cadáver? Chame a ambulância!
Disse que estava passando a vira o cadáver, mas seus olhos mentiram. Não porque choraram ou fraquejaram, não porque as sobrancelhas ensaiaram um calabouço. Simplesmente porque mentiram. Simplesmente porque olhos mentem quando querem. E a sirene deve ter percebido, pois disse em plenos pulmões:
ASSASSINO!

Foi-se a sirene. Mas não se foi por suas próprias pernas. Era, mais uma vez, um punho com lâmina. Mas no outro, não havia mais o ódio. Era apenas o medo, puro, simples, descontido. E o medo faz coisas indescritíveis. A sirene jaziu ao lado do desalmado. E agora era assassino duas vezes. Duas vidas. Duas pessoas que agora conheciam o que havia por trás da linha que dividia a vida e a morte. Duas pessoas que acabavam de descobrir o mistério de toda a vida humana e desmentir mais de mil crenças diferentes. Duas pessoas cujas vidas tinham sido tiradas por ele.

De repente se sentiu tão poderoso.